IDEB

Um estudo publicado no Journal of the American College of Cardiology (JACC) acompanhou mais de 260 mil pessoas por cerca de 20 anos e mostrou que onde a gordura se acumula importa tanto quanto o quanto ela pesa. Para o endocrinologista e professor de Medicina do CEUB Dr. Márcio Dytz, ouvido pelo Correio Braziliense, o achado reforça um rastreio simples e ao alcance de qualquer serviço de saúde.

Durante décadas, o Índice de Massa Corporal (IMC) foi a régua padrão para classificar peso e estimar risco. Ele é prático, barato e útil — mas tem um limite conhecido: leva em conta apenas peso e altura e não enxerga como a gordura está distribuída pelo corpo. Uma nova análise sugere que essa distribuição pode ser decisiva para o coração.

O que o estudo mostrou

Pesquisadores da Cross Cohort Collaboration, em trabalho liderado pela Universidade Johns Hopkins, reuniram dados de mais de 260 mil pessoas seguidas por aproximadamente duas décadas. Eles cruzaram a circunferência da cintura (CC) e a relação cintura-quadril (RCQ) com desfechos cardiovasculares importantes — infarto, AVC, insuficiência cardíaca, fibrilação atrial, doença coronariana e mortalidade.

O resultado central: a adiposidade abdominal elevada esteve associada a um risco entre 15% e 50% maior para boa parte desses desfechos em pessoas com peso normal ou sobrepeso. Ou seja, duas pessoas com o mesmo IMC podem ter perfis de risco cardiovascular completamente diferentes, a depender de onde a gordura se concentra.

Mais revelador ainda: entre participantes considerados de peso normal pelo IMC, uma parcela apresentava a cintura elevada — proporção que crescia bastante quando se olhava a relação cintura-quadril. É o tipo de paciente que passa despercebido quando se avalia apenas a balança.

Por que a gordura da barriga pesa mais no risco

A explicação está na gordura visceral — aquela que se deposita ao redor dos órgãos, no abdome. Diferente da gordura subcutânea, ela é metabolicamente ativa e inflamatória, ligada de perto à resistência à insulina, ao diabetes tipo 2 e às doenças cardiovasculares. Medir a cintura é, na prática, uma forma indireta e barata de estimar quanto dessa gordura de risco a pessoa carrega.

Palavra do especialista

“Embora seja correto afirmar que a circunferência abdominal prediz o risco melhor do que o IMC, isso não significa que o IMC tenha se tornado irrelevante.”

“O segundo ponto que considero especialmente animador é que o instrumento envolvido é uma simples fita métrica de custo irrisório. No Brasil, isso democratiza a avaliação de risco: qualquer unidade de saúde pode aferir a circunferência abdominal e identificar precocemente indivíduos sob risco, muito antes da ocorrência de um evento cardiovascular.”

— Dr. Márcio Dytz, endocrinologista e professor de Medicina do CEUB, em entrevista ao Correio Braziliense

O recado tem duas camadas. A primeira é de cautela científica: o estudo mostra associação, não relação de causa, e o IMC continua sendo uma ferramenta válida, sobretudo em avaliações populacionais. A segunda é de saúde pública: a ferramenta que melhora essa avaliação custa quase nada e cabe em qualquer consultório ou posto de saúde.

Cada ferramenta no seu lugar

No IDEB, trabalhamos com a ideia de que essas medidas são complementares, não concorrentes:

  • IMC — relação peso/altura. Ótimo para triagem e estudos de população; ponto de partida, não de chegada.
  • Circunferência abdominal — estima a gordura visceral e o risco cardiometabólico; mostra onde a gordura está.
  • Relação cintura-quadril — refina a leitura da distribuição da gordura pelo corpo.

Como medir e quando acender o alerta

A aferição é feita com uma fita métrica, com a pessoa em pé e o abdome relaxado, ao final de uma expiração normal, no ponto médio entre a última costela e a borda superior do osso do quadril. Como referência para adultos, segundo a Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso):

  • Homens: a partir de 94 cm, risco aumentado; a partir de 102 cm, risco elevado.
  • Mulheres: a partir de 80 cm, risco aumentado; a partir de 88 cm, risco elevado.

Esses limites são referências e devem sempre ser interpretados no contexto clínico de cada pessoa, podendo variar conforme características étnicas.

A mensagem que levamos ao consultório

Avaliar risco cardiovascular é ir além da balança. Incorporar a circunferência abdominal à consulta permite identificar precocemente quem precisa de atenção — inclusive pessoas com peso “normal” — e agir antes que o problema apareça. É uma medida simples que pode mudar condutas.

Quer avaliar o seu risco de forma completa? A equipe do IDEB — Instituto de Diabetes e Endocrinologia de Brasília está à disposição para uma avaliação individualizada.


Fonte: Reportagem “Gordura abdominal pode indicar risco cardíaco mesmo com peso normal”, de Isabella Almeida, Correio Braziliense (Caderno Saúde & Ciência, 12/08/2026). Disponível em: https://www.correiobraziliense.com.br/ciencia-e-saude/2026/08/7478036-gordura-abdominal-pode-indicar-risco-cardiaco-mesmo-com-peso-normal.html

(61) 3039-8439