Uma reportagem publicada pela Folha de S.Paulo trouxe o relato de um empresário de 32 anos que, após sete anos usando testosterona por conta própria e sem indicação médica, viveu o medo de não conseguir ter filhos. O caso ilustra um problema que tem crescido nos consultórios de endocrinologia: o uso de testosterona exógena para fins estéticos ou de desempenho, sem diagnóstico de deficiência hormonal e sem acompanhamento adequado.
Ouvido pela reportagem, o endocrinologista Márcio Dytz, professor de Endocrinologia no Centro Universitário de Brasília (CEUB), explicou que doses abusivas de testosterona podem gerar uma espécie de dependência: o organismo se acostuma à massa muscular e às mudanças de comportamento associadas aos níveis elevados do hormônio, o que torna difícil aceitar a volta aos níveis naturais quando o uso é interrompido. Segundo o professor, é comum que o paciente pare por conta própria, sinta a queda de desempenho e de ânimo, e retome a aplicação de testosterona sem qualquer acompanhamento médico — um ciclo que adia o diagnóstico correto e prolonga a exposição ao risco.

O que a testosterona externa faz no organismo
Quando a testosterona vem de fora em doses elevadas, o cérebro reduz a produção de LH e FSH, os hormônios que estimulam os testículos. Com menos estímulo, a produção de espermatozoides cai — em casos mais graves, chegando a zero (azoospermia). É por isso que o consenso mencionado na reportagem, elaborado pela SBU, pela SBEM e pela Abemss, contraindica o uso de testosterona para homens que pretendem ter filhos no curto prazo.
O que mostra a literatura científica
Os dados publicados sobre o tema reforçam o alerta:
- A prevalência estimada de uso de esteroides anabolizantes entre homens, ao longo da vida, é de cerca de 6,4% no mundo todo — chegando a 18,4% entre os que praticam esportes recreativos.
- O uso pode reduzir o volume testicular em até 30%, refletindo a supressão da produção de espermatozoides.
- Entre usuários que interrompem o uso, o tempo médio para a concentração de espermatozoides voltar ao normal é de cerca de 14,1 meses — e a motilidade pode levar ainda mais tempo para se recuperar, em torno de 37,6 meses.
- Em estudo prospectivo, 32% dos homens com azoospermia associada ao uso de testosterona ou anabolizantes permaneciam inférteis mesmo após um ano de tratamento.
- Em um estudo clássico da Organização Mundial da Saúde com 271 homens usando testosterona injetável semanalmente, 65% desenvolveram azoospermia; após a suspensão, 84% recuperaram concentração acima de 20 milhões/mL, mas apenas 46% voltaram ao seu nível basal de espermatozoides.
O que recomenda o posicionamento brasileiro sobre hipogonadismo
Em 2026, SBEM, SBU e Abemss publicaram o primeiro posicionamento conjunto brasileiro sobre hipogonadismo masculino, com recomendações práticas baseadas em evidência. Entre os pontos mais relevantes para este caso:
- A reposição de testosterona não deve ser iniciada em homens com planejamento de fertilidade a curto prazo (Recomendação 18).
- Homens com deficiência de testosterona que desejam preservar a fertilidade devem passar por avaliação reprodutiva antes de qualquer tratamento hormonal (Recomendação 21).
- Para esses casos, existem alternativas à testosterona convencional — como moduladores seletivos do receptor de estrogênio, gonadotrofina coriônica humana e inibidores de aromatase, isolados ou combinados — que podem corrigir os sintomas sem interromper a produção natural de espermatozoides (Recomendação 22).
Quando procurar orientação médica
Sintomas de baixa testosterona têm diversas causas, e nem todo homem com queixas de libido, energia ou massa muscular tem indicação de reposição hormonal. Um diagnóstico correto exige exames laboratoriais e avaliação clínica individualizada — especialmente para quem já usa ou considera usar testosterona por conta própria e deseja ter filhos no futuro.
Dr. Márcio Dytz é endocrinologista, professor de Endocrinologia no CEUB e responsável clínico pelo IDEB — Instituto de Diabetes e Endocrinologia de Brasília, onde atende com uma equipe multidisciplinar de endocrinologistas, psiquiatra, nutricionistas e psicólogo.
Referências científicas utilizadas
- Hohl A, et al. Care of Patients with Male Hypogonadism: A Joint Position Statement from the Brazilian Society of Endocrinology and Metabolism (SBEM), the Brazilian Society of Urology (SBU), and the Brazilian Association for Sexual Medicine and Health (Abemss). Int Braz J Urol. 2026;52(3):e20250610. doi.org/10.1590/S1677-5538.IBJU.2025.0610
- Al Hashimi M, Pinggera GM, Shah R, Agarwal A. Clinician’s guide to the management of azoospermia induced by exogenous testosterone or anabolic–androgenic steroids. Asian J Androl. 2025;27:330-341. doi.org/10.4103/aja2024104
- Anawalt BD. Diagnosis and Management of Anabolic Androgenic Steroid Use. J Clin Endocrinol Metab. 2019;104(7):2490-2500. doi.org/10.1210/jc.2018-01882
- Crosnoe LE, Grober E, Ohl D, Kim ED. Exogenous testosterone: a preventable cause of male infertility. Transl Androl Urol. 2013;2(2):106-113. doi.org/10.3978/j.issn.2223-4683.2013.06.01
📰 Leia a reportagem completa na Folha de S.Paulo: https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2026/09/tive-medo-de-nao-poder-ter-filhos-diz-homem-apos-uso-prolongado-de-testosterona.shtml