Uma das maiores revisões já publicadas sobre remédios para obesidade reacendeu o debate sobre os benefícios e os limites dessas terapias. Ouvido pelo Correio Braziliense, o Dr. Márcio Dytz, endocrinologista do IDEB e professor do CEUB, destacou o ponto que mais importa na prática: os tratamentos para obesidade não são intercambiáveis — a escolha deve partir do perfil de cada paciente.
Publicada em julho de 2026 no periódico The BMJ, uma revisão sistemática com metanálise em rede reuniu 262 ensaios clínicos e quase 100 mil participantes para comparar 19 medicamentos usados no tratamento do sobrepeso e da obesidade. O trabalho analisou não apenas a perda de peso, mas também efeitos adversos, tolerância, composição corporal e desfechos cardiovasculares — e concluiu que benefícios maiores costumam vir acompanhados de mais efeitos colaterais, reforçando a importância de decisões cuidadosas e compartilhadas.
A repercussão chegou às páginas do Correio Braziliense, que ouviu o Dr. Márcio Dytz sobre o significado clínico desses achados.
“O desenho desse estudo, de uma revisão sistemática e uma análise em rede, nos permite avaliar o benefício de cada molécula, o impacto que ela tem e também os efeitos adversos, qual foi mais tolerado, analisando pontualmente a diferença de cada remédio. Nesse sentido, o trabalho nos traz uma maior precisão numa abordagem individualizada e compartilhada com o paciente, mostrando que os tratamentos para obesidade não são intercambiáveis e que devemos, sim, avaliar qual é o perfil de paciente que teria maior benefício.”
— Dr. Márcio Dytz, endocrinologista do IDEB e professor do CEUB
O que isso significa para quem trata a obesidade
Para o Dr. Márcio, a leitura atenta do estudo desfaz alguns equívocos que circularam na imprensa. Quando a pesquisa aponta que a perda de peso nem sempre se traduz em melhora “clinicamente importante” da qualidade de vida, é preciso lembrar que os ensaios usaram, em geral, questionários genéricos e tempo de acompanhamento curto — instrumentos que captam mal ganhos concretos que vemos no consultório, como voltar a se movimentar sem falta de ar, melhorar a apneia do sono, reduzir dores articulares e recuperar autoestima.
Da mesma forma, no campo cardiovascular, o estudo mostra que alguns medicamentos oferecem proteção real — a semaglutida, por exemplo, reduziu mortalidade e infarto com alto grau de certeza. Ou seja: o perfil cardiovascular do paciente é um critério legítimo, e muitas vezes decisivo, na escolha do tratamento.
Há ainda dois princípios que orientam o cuidado responsável: a obesidade é uma doença crônica, e os resultados tendem a se perder quando o tratamento é interrompido sem estratégia — daí a importância do acompanhamento continuado; e a preservação da massa muscular durante o emagrecimento, garantida com ingestão adequada de proteínas, treino de força e avaliação da composição corporal, e não apenas o número na balança.
O cuidado individualizado no IDEB
É exatamente esse olhar que orienta o trabalho do IDEB. Com uma equipe multidisciplinar — endocrinologistas, nutrição, psiquiatria e psicologia —, o instituto avalia cada paciente de forma integral, considerando comorbidades, histórico, objetivos e preferências, para definir, em conjunto, o tratamento com maior chance de benefício e menor risco. Porque, como resume o Dr. Márcio, não existe o “melhor remédio” para a obesidade: existe o melhor tratamento para cada pessoa.
Com informações da reportagem “Os limites de emagrecer sem alterar hábitos” (Correio Braziliense, Caderno Saúde, 9 de julho de 2026) e do estudo publicado no The BMJ (2026;394:e372161). Link: https://www.correiobraziliense.com.br/ciencia-e-saude/2026/07/7457560-estudo-revela-limites-das-canetas-emagrecedoras-sem-mudanca-de-habitos.html