Refrigerantes, biscoitos recheados, salgadinhos, embutidos e refeições prontas estão cada vez mais presentes no prato do brasileiro. Uma nova meta-análise, publicada em 2026 em revista do grupo British Medical Journal, reuniu dados de 8.819.894 adultos de 51 estudos de coorte e mostrou que o consumo elevado de ultraprocessados está associado a maior risco de doenças cardiovasculares, diabetes, obesidade, depressão, câncer, doenças digestivas e morte precoce.
O estudo foi tema de reportagem do Correio Braziliense (caderno Ciência e Saúde, 23/09/2026), que ouviu o endocrinologista Dr. Márcio Garrison Dytz, diretor médico do IDEB e Professor Titular da Faculdade de Medicina do CEUB.
O que o estudo mostrou
Os pesquisadores analisaram 51 coortes prospectivas das Américas, Europa, Ásia e Oceania, com acompanhamento de 2 a 32 anos. Na comparação entre quem mais consome e quem menos consome ultraprocessados, o consumo elevado se associou a maior risco de:
| Desfecho | Aumento de risco |
|---|---|
| Doenças digestivas (com destaque para a doença de Crohn) | +31% |
| Depressão e ansiedade | +27% |
| Eventos cardiovasculares (infarto, AVC e outros) | +24% |
| Síndrome metabólica e diabetes | +24% |
| Obesidade e sobrepeso | +23% |
| Morte por todas as causas | +18% |
| Câncer | +12% |
A análise de dose-resposta reforçou o achado: a cada 100 gramas a mais de ultraprocessados por dia, o risco de eventos cardiovasculares aumentou 14%, o de hipertensão 11%, o de câncer 4% e o de morte por qualquer causa 3%. Em outras palavras, quanto maior o consumo, maior o risco.
O consumo cresce no mundo todo. Nos Estados Unidos, os ultraprocessados chegaram a 57% das calorias diárias. No Brasil e no México, a participação passou de cerca de 10% para 23%.
A classificação NOVA: uma contribuição brasileira
O estudo utiliza a classificação NOVA, criada pelo professor Carlos Augusto Monteiro, da Faculdade de Saúde Pública da USP e do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde (Nupens). A grande inovação da NOVA foi deixar de olhar apenas para calorias e nutrientes e passar a classificar os alimentos pelo grau e pela finalidade do processamento industrial. Ela divide a comida em quatro grupos:
- In natura ou minimamente processados: frutas, legumes, verduras, arroz, feijão, ovos, carnes frescas e leite.
- Ingredientes culinários processados: óleos, manteiga, sal e açúcar, usados para temperar e cozinhar.
- Processados: alimentos acrescidos de sal, açúcar ou óleo, como conservas, queijos e pães artesanais.
- Ultraprocessados: formulações industriais feitas com substâncias extraídas de alimentos e aditivos que não usamos em casa, como xaropes, amidos modificados, corantes, aromatizantes e emulsificantes, pensadas para serem baratas, práticas e hiperpalatáveis.
A NOVA é a base do Guia Alimentar para a População Brasileira, do Ministério da Saúde, referência internacional em orientação alimentar, e hoje é usada por pesquisadores do mundo inteiro, como os autores desta meta-análise.
Palavra do especialista: as quatro perguntas ao Dr. Márcio Dytz
A seguir, as respostas do Dr. Márcio Dytz às quatro perguntas da reportagem.
1. O estudo não estabelece um limite seguro. Na prática clínica, o que pode ser considerado consumo excessivo?
“Na prática diária, considero excessivo quando o ultraprocessado deixa de ser exceção e passa a ser a base do dia. É o refrigerante ou o suco de caixinha diário, o presunto e o pão de forma no café da manhã, o biscoito ou o salgadinho como lanche fixo e as refeições prontas várias vezes na semana. Nos estudos analisados, quem tinha mais risco chegava a consumir de 30% a 50% das calorias diárias desses produtos. Quando vejo que eles aparecem em quase todas as refeições, principalmente em quem já tem obesidade, pré-diabetes ou diabetes, esse é o sinal de alerta.”
2. Os pesquisadores sugerem reduzir os ultraprocessados para 10% a 20% da energia diária. Essa faixa já pode ser adotada como recomendação médica?
“Ainda não como número validado, mas pode ser usada como meta pragmática. Esse valor não sai da análise de dose-resposta do próprio estudo; os autores o tiraram de um trabalho transversal australiano, que mostrou que abaixo dessa faixa a dieta tende a cumprir as metas de açúcar, sódio, gordura saturada e fibras. Por isso trato a faixa de 10% a 20% como uma direção, e não como um limite comprovado. O Guia Alimentar para a População Brasileira, também construído sobre a NOVA, já dá a orientação mais sólida: fazer da comida de verdade a base da alimentação e evitar ultraprocessados. Na prática, isso significa reduzir de forma gradual a partir do consumo atual de cada paciente, trocando por alternativas minimamente processadas em vez de simplesmente proibir.”
3. A cada 100 gramas adicionais por dia, o risco cardiovascular sobe 14%. Como interpretar esse resultado e quais mecanismos explicam essa relação?
“É um alerta relevante, já que 100 gramas de ultraprocessados cabem facilmente na rotina: basta um pacote de biscoito recheado ou um sanduíche de pão de forma com presunto. O aumento de 14% no risco relativo é expressivo, porque vale para cada 100 gramas a mais por dia e se acumula com o consumo: quanto maior a quantidade de ultraprocessados na dieta, maior o risco.”
“Os mecanismos fazem sentido do ponto de vista metabólico. Esses produtos são macios, calóricos e muito saborosos, então comemos mais rápido e em maior quantidade antes de sentir saciedade. Têm muito açúcar, sal e gordura de má qualidade e pouca fibra, o que favorece resistência à insulina, gordura abdominal, pressão alta e alterações do colesterol. Há ainda indícios de que aditivos como emulsificantes e adoçantes alteram a microbiota intestinal e aumentam a inflamação e o estresse oxidativo. Além disso, substâncias que se formam no processamento industrial, como a acrilamida, e compostos das embalagens, como os bisfenóis, que interferem no sistema hormonal, se associam a maior risco cardiovascular.”
4. A classificação reúne produtos muito diferentes. Quais devem ser reduzidos primeiro e quais podem fazer parte de uma alimentação equilibrada?
“A classificação NOVA reúne produtos muito diferentes, por isso o melhor é priorizar. Vale começar reduzindo as bebidas açucaradas, os embutidos, os biscoitos recheados, os salgadinhos e as refeições prontas, e trocá-los por água, ovos, frutas, castanhas, iogurte natural e comida feita em casa. Já produtos como pão integral de boa qualidade, iogurte sem açúcar e chocolate amargo podem fazer parte de uma alimentação equilibrada, sobretudo quando o rótulo traz poucos ingredientes. Pequenas trocas feitas com constância já fazem diferença, e a mensagem que deixo resume o trabalho do professor Carlos Monteiro: desembalar menos e descascar mais.”
Como interpretar os resultados
Por se tratar de estudos observacionais, a meta-análise mostra associação, e não prova de causa, e os próprios autores classificam a certeza da evidência como baixa a moderada para a maioria dos desfechos. Ainda assim, a consistência dos resultados, o grande número de participantes, a relação de dose-resposta e a plausibilidade dos mecanismos reforçam a recomendação de reduzir os ultraprocessados. Como essas doenças costumam aparecer juntas no mesmo paciente, diminuir o consumo pode ajudar a prevenir várias delas ao mesmo tempo.
Pequenas trocas, grande efeito
- Refrigerante e suco de caixinha → água e suco natural
- Presunto, salsicha e salame → ovos, frango e queijo branco
- Biscoito recheado e salgadinho → frutas, castanhas e iogurte natural
- Refeições prontas → comida feita em casa
No IDEB, a orientação alimentar faz parte do cuidado de pacientes com obesidade, diabetes e outras doenças metabólicas, com acompanhamento integrado entre endocrinologistas, nutricionistas, psiquiatras e psicóloga. A mudança não precisa ser radical: o importante é que a comida de verdade volte a ser a base do prato.
Referências
- Liu X, Luo S, Zeng Y, et al. Ultra-processed food consumption and risk of multiple chronic diseases among 8,819,894 adults from 51 prospective cohorts: a dose-response meta-analysis. Fam Med Com Health. 2026;0:e003925. doi:10.1136/fmch-2026-003925
- Monteiro CA, Louzada ML, Steele-Martinez E, et al. Ultra-processed foods and human health: the main thesis and the evidence. Lancet. 2025;406:2667–84.
- Monteiro CA, Cannon G, Levy RB, et al. Ultra-processed foods: what they are and how to identify them. Public Health Nutr. 2019;22:936–41.
- Machado PP, Steele EM, Levy RB, et al. Ultra-processed foods and recommended intake levels of nutrients linked to non-communicable diseases in Australia: evidence from a nationally representative cross-sectional study. BMJ Open. 2019;9:e029544.
- Brasil. Ministério da Saúde. Guia Alimentar para a População Brasileira. 2ª ed. Brasília: Ministério da Saúde; 2014.
Leia a reportagem completa
Oliveto P. Ultraprocessados: estudo aponta maior risco de doenças e morte precoce. Correio Braziliense, Ciência e Saúde, 23 set. 2026. Disponível em: https://www.correiobraziliense.com.br/ciencia-e-saude/2026/09/7506014-ultraprocessados-estudo-aponta-maior-risco-de-doencas-e-morte-precoce.html
Dr. Márcio Garrison Dytz – Endocrinologista, diretor médico do IDEB e Professor Titular da Faculdade de Medicina do CEUB. CRM-DF 15025 | RQE 12360.
